Qual a relação entre a linguagem e a cognição?

A reflexão sobre a relação entre linguagem e cognição deve ser iniciada pela compreensão do que é a ciência cognitiva, que é a ciência que se interessa principalmente por pesquisas sobre cognição, funcionamento do cérebro, natureza do conhecimento, inteligência artificial, aquisição de linguagem etc. Tal ciência pode ser definida, portanto, como aquela que descreve, explica e por vezes simula aspectos da cognição humana (linguagem, percepção, coordenação motora, capacidade de planejamento…), fazendo isso com o propósito de entender processos mentais e de aquisição de conhecimentos, além dos processos de percepção do ser humano. Assim, ela é, simplificando, a ciência do estudo do cérebro, da mente e da inteligência.

O processo cognitivo inicia-se pela percepção até chegar à última etapa, relacionada à linguagem, que é a formação de conceitos. A etapa inicial da percepção pode ser chamada de sensação-percepção, que é o momento no qual conhecemos algo sem precisar de nenhuma definição ou elaboração de representação. Quando digo sensação me refiro à utilização dos cinco sentidos, que fazem com que o ser humano se relacione com o mundo. Depois disso é que uma pessoa pode organizar e interpretar as percepções adquiridas pelas sensações para dar sentido ao meio, seguindo a lógica: aquisição, interpretação, seleção e organização de informações para formação de conceitos que são classificados em categorias. Essas categorias são representações linguísticas baseadas em protótipos.

Outra questão que amplamente relaciona a linguística à cognição, como listado anteriormente, é a aquisição da linguagem, tendo como principais pensadores Piaget e Vigotski. Ambos pensando a aquisição da linguagem como um processo cognitivo. O primeiro desenvolve sua teoria a partir de sua visão de que a linguagem (representação simbólica) só é possível pela evolução da inteligência sensório-motora, anterior à linguagem e conseguida a partir dos sentidos: a linguagem surge no período que o autor chama de representativo e que ocorre quando a criança tem por volta de dois anos de idade. A aquisição, para ele, também está ligada a uma nova relação com o mundo pela criança. O autor também diz que as atividades intelectuais são construídas para que o sujeito se adapte ao ambiente, para ele o pensamento é uma ação internalizada. Segundo ele o conhecimento é adquirido por assimilação e posteriormente esse conhecimento é acomodado, assim havendo a aquisição. Dessa forma, a aquisição da linguagem está totalmente associada ao desenvolvimento da inteligência, sendo assim também um desenvolvimento cognitivo.

Já Vigotski, diferentemente, afirma que a linguagem é mais do que a relação do ser humano com o mundo. Para ele, a relação da linguagem com a cognição perpassa as habilidades biológicas, as interações, a subjetividade e a vida em sociedade, que são sistemas de referência antropológicos e culturais. O mundo não é produto da linguagem, mas é percebido e dado sentido por ela, pois é constituído simbolicamente. Esse autor afirma que para a aquisição da linguagem, levando em conta esses fatores, é necessário que a criança dê significado às coisas, não só passando pelo processo de representação. Assim, para ele, a linguagem é uma ação humana ao passo que interpreta, representa, modifica etc. e também que a ação humana atua sobre a linguagem, dessa forma o autor dá grande importância ao meio e à cultura nesse processo de aquisição.

Com tudo isto posto, e ainda deixando de lado muitos aspectos interessantes que circundam a relação linguagem e cognição, podemos entender o quanto a linguística cognitiva tem a colaborar nas ciências cognitivas. Linguagem é em si mesma um processo cognitivo e dá suporte aos outros, o pensamento é formulado através da linguagem, ela é como falamos sobre o mundo e nossas vivências. Cabe ao linguista cognitivo entender essa relação e explicar tantos aspectos importantes que perpassam a mente humana.

O copyright na história

Falkvinge publicou em seu blog uma série em sete capítulos chamada História do Copyright, em que abrange o período de 1350 até 2011.

A história começa em 1350, quando livros eram feitos por copistas religiosos, que diminuíram em número pela peste negra, já que muitos jovens precisaram cuidar de suas famílias e não puderam mais servir a Igreja. Então, em 1451, a invenção de Gutemberg deu origem à imprensa, fazendo com que o serviço de copista não fosse mais necessário e possibilitou a divulgação da informação mais agilmente. A Igreja, mesmo em falta com o ofício de cópia, não gostou desse invento, já que com isso perdeu o controle sobre as informações que eram de acesso público. Assim, a instituição tentou convencer governantes a criar leis para impedir essa divulgação do conhecimento, o que não foi capaz de impedir que gráficas clandestinas existissem.

Desse momento, que contextualiza a relevância da Igreja Católica nessa história, seguiu-se a criação do protestantismo pelo rei Henrique VIII, que culminou com a posse de sua filha, antes considerada ilegítima pela Igreja Católica, em rainha da Inglaterra e quem inventou o copyright. A partir de então leis sobre livros tiveram seus altos e baixos, envolvendo diversas instituições, privadas ou não, e governos diferentes pelo mundo. Porém, mesmo em momentos de censura, havia pirataria e divulgação do conhecimento literário.

A história mais atual do copyright envolve monopólios corporativos privados que, mais do que interessados na preservação do conhecimento, se preocupam com lucros. Partindo desses interesses são criadas diversas instituições, muitas a partir dos Estados Unidos, que regulamentam leis sobre publicações de propriedades intelectuais pelo mundo, não só sobre livros, outras criações, como música, também são abordadas nessas leis.

Língua: Estrutura e conteúdo

Uma língua não é constituída apenas por suas palavras, mas também por outros elementos que são, de certa forma, invisíveis aos olhos dos seus falantes. A estrutura de uma língua é tão importante quanto as palavras que a formam, cada língua possui uma estrutura que dará e modificará o sentido do que se diz. Este ensaio se propõe a abordar o que é a lingua e como ela é constituída, de acordo com o autor do livro O Desenrolar da Linguagem, Guy Deutscher, livro o qual foi traduzido para a língua portuguesa por Renato Miguel Basso e Guilherme Henrique May.

Muitas vezes, nós somos levados a pensar que saber uma língua é basicamente conhecer suas palavras, pois nosso maior esforço ao aprender uma nova língua é, de fato, a memorização de novo vocabulário. Entretanto, a estrutura de uma língua também possui o seu papel na constituição de sentido e compreensão de um enunciado. O significado do que se diz depende de suas palavras e a forma que elas estão dispostas na frase, palavras soltas de forma aleatória não demonstram nenhum sentido específico.

Assim como cada língua tem palavras diferentes, cada língua também pode ter sua própria estrutura característica, o que molda a forma como a frase é construída e o que é necessário para a compreensão do sentido. Por exemplo, a língua turca tem uma construção contrária a da língua portuguesa. Ao traduzir uma frase turca também será necessário inverter a ordem das palavras para que elas então façam sentido na nossa língua. Isso corrobora a ideia de que aquele que aprende uma nova língua não deve apenas aprender suas palavras, mas também como elas são apresentadas na frase e como demonstram sentido.

Levando em conta essa distinção entre a construção das línguas, não é possível que determinemos a existência de uma “língua natural” em seu sentido amplo. As características de uma língua parecerão naturais a seus falantes nativos e estranhas àqueles que a aprendem como uma outra língua a parte de sua língua nativa. Sendo assim, é claro que afirmemos que uma língua e sua naturalidade fazem parte de uma convenção cultural, que irá variar, dessa forma, no espaço e no tempo. Entretanto, alguns princípios naturais realmente existem. Cada língua não pode, necessariamente, ordenar as palavras na frase como bem entender. Existem convenções estruturais que variam em cada língua especificamente.

Outra faceta da língua é a existência de palavras lexicais e de palavras gramaticais. Palavras lexicais são aquelas com significado “simples”, como coelho. Já as palavras gramaticais são aquelas que não tem significado próprio, seus conceitos não são passíveis de serem imaginados isoladamente, dessa forma estão sempre ligadas a outras palavras. Esse é o caso dos artigos e preposições, por exemplo. Além das palavras gramaticais também existem os sufixos, que não chegam a ser palavras, mas não fragmentos capazes de modificar o significado dessas. Como exemplo há os sufixos presentes em infelizmente, in– e –mente. Esses termos, mesmo podendo parecer redundantes e sem sentido, têm seu papel na língua e são indispensáveis na construção de sentido, tornando-se parte essencial da hierarquia da frase. Em frases curtas, de duas a três palavras, essa hierarquia não é aparente, porém se mostra essencial em frases complexas.

Todas as línguas do mundo possuem estruturas hierárquicas, possuem palavras gramaticais e sufixos, além de terem convenções na ordenação da frase, variando em suas especificidades. Levando em conta todas as familiaridades existentes entre as línguas, por mais diferentes que sejam entre si, notamos a existência de uma lógica em sua estrutura. Assim, volto a repetir que uma língua será natural para aqueles que a aprendem como primeira língua, pois a naturalidade é uma convenção cultural. Por mais semelhante que uma língua seja da outra, nunca será tão natural o seu entendimento quanto o da sua língua materna, que está enraizada em sua cultura e sociedade.

Redação modelo ENEM – Bullying: Como a culpa não se aloja num único fator

O bullying é uma realidade extremamente comum, pode ser visto tanto nas escolas pobres da periferia, quanto nas de maior prestígio destinadas a classes mais altas. Por que há tais atitudes violentas em crianças? Muito se relaciona às concepções de certo e errado, normal e anormal difundidas na sociedade. O “caráter” de uma pessoa sofre frequentes influências e adaptações; as crianças, por sua pouca experiência de vida, sofrem muito mais com essas influências.

É comum a veiculação de notícias do tipo “Menino de 9 anos é internado após agressão em escola” nas diversas mídias. Isso gera muitos questionamentos que várias vezes não são respondidos adequadamente. Os valores passados para os agressores pela escola e pela família, por exemplo, tornam-se indagáveis, pois de alguma forma o agredido foi considerado anormal e violentado por esse motivo. Todos esses distúrbios de violência social são analisados, principalmente nos meios de comunicação, de maneira supérflua, como se fosse só mais um crime. Infelizmente esse “só mais um crime” possibilita múltiplos outros, talvez piores.

A culpa dessa atitude não deve ser destinada a apenas um fator, ela está enraizada em cada setor da sociedade — seja numa piada ou numa música popular. Sua amplitude pode ser exemplificada com pais que muitas vezes não se dispõem a explicar o porquê da cota para negros e, se ninguém o fizer, os filhos podem entender que é porque os negros são inferiores. Isso se aplica a qualquer generalização, se não há explicação abrem-se possibilidades de conclusões diversas e ilógicas.

Assim pode-se perguntar se as transformações sociais que darão fim ao bullying — e a outras formas de violência — estão sendo alcançadas, seja aos poucos ou não. A sociedade está caminhando para uma maior igualdade e difusão de informações? Medidas com esse objetivo devem ser maximizadas, para que o fim, quase utópico, de todos os tipos de violência venha rapidamente. Nas escolas, especificamente, a diminuição do bullying pode ser alcançada através de atividades que ressaltem a importância das diferenças e sua aceitação. O corpo docente deve, de acordo com a demanda da escola, definir as especificidades em busca da ênfase no trabalho em grupo e em suas vantagens.

Uma polêmica linguísticas – Os livros didáticos e a variação

Em 2011, uma polêmica em relação à norma culta versus variações surgiu na mídia, o que fez com que muitas pessoas dessem suas opiniões a respeito. Essa polêmica teve como ponto central um capítulo do livro didático para Educação de Jovens e Adultos (EJA), escrito por Heloísa Ramos e distribuído pelo MEC, que tinha como objetivo ensinar a norma culta a partir de exemplos de falas orais, mostrando que cada uma é correta em seus contextos distintos. Entretanto, a polêmica foi o entendimento que se estava ensinando “português errado”, pela análise de trechos sem contexto do livro.

Um debate há tanto tempo existente nos estudos linguísticos passou a fazer parte de jornais e discussões fora dos meios acadêmicos, mostrando até que ponto chegam relações de poder e crenças meritocráticas. Nos estudos da sociolinguística, parte da linguística que estuda a língua em relação a fatores externos a ela, existe o conceito de variação linguística, que explica a língua como parte de uma sociedade, entendendo que existem certos falares considerados “melhores” que outros, por serem de grupos socialmente mais poderosos.

Variação linguística é a maneira como uma língua se transforma em diferentes contextos, sejam eles regionais, sociais, históricos, de gênero… A partir de seu entendimento, a norma culta é apenas uma das faces da língua portuguesa, sendo sim correta em contextos específicos. Mas tal variedade ser correta não interfere em outras também terem essa marcação, há um estigma social em outras variações que faz com que a norma culta seja vista como melhor e muitas vezes como a única correta, mas isso não reflete a realidade, apenas um viés social que foi construído historicamente.

O capítulo do livro didático “Por uma vida melhor” levava em consideração tais discussões linguísticas para trabalhar a concordância, se preocupando em afirmar que não existe um certo e um errado na língua entre variação oral e a norma culta, apenas contextos que exigem uma e não a outra. A didática apresentada era a passagem de frases da variação oral, sem concordância nominal e verbal, para a variação culta, que apresentava essas concordâncias. Ao ser apresentado na mídia, certos trechos que tiravam esse contexto foram apresentados, o que levou a uma grande desaprovação do livro, do MEC e da autora, que foram alvos de muitas críticas.

Um fato interessante sobre as críticas em programas jornalísticos é que foram convidados a comentar o caso gramáticos, jornalistas e outros profissionais, mas nunca linguistas, que em sua maioria se mostraram favoráveis ao livro. Uma das reportagens disponíveis no YouTube sobre o assunto é a do Bom dia Brasil, que critica muito o livro. Um de seus comentaristas chega a afirmar que aquele que se nivela por baixo nunca irá alcançar sucesso, como se a afirmação e aceitação de variantes que a não a culta fossem um sinal de falta de ambição, quando que, na verdade, mostrar para aqueles que voltam a estudar pelo EJA que eles sabem sim português e podem transformar o seu conhecimento já existente para ser utilizados em contextos mais cultos é uma forma pedagogicamente eficaz de gerar interesse e motivação. O preconceito linguístico é gerado muitas vezes de cima para baixo socialmente e a aceitação de seu falar regional é parte importante de reconhecer suas origens e ter respeito próprio, as pessoas não devem se diminuir em relação aos outros pela variação linguística que falam – mas, sim, é importante saber contextos específicos de se usar cada variante, o que é deixado claro no livro.

Felizmente, em resposta a essa e outras leituras enviesadas, linguistas e alguns outros profissionais, como Sírio Possenti e Marcos Bagno, escreveram textos defendo o capítulo em questão. O trecho a seguir, retirado de uma nota da ABRALIN, fala sobre a função científica do linguista, que não deve estigmatizar o que é certo e o que é errado, sendo capaz de transmitir suas descobertas como veículo de cidadania.

Por manter um posicionamento científico, a linguística não faz juízos de valor acerca dessas variedades, simplesmente as descreve. No entanto, os linguistas, pela sua experiência como cidadãos, sabem e divulgam isso amplamente, já desde o final da década de sessenta do século passado, que essas variedades podem ter maior ou menor prestígio. O prestígio das formas linguísticas está sempre relacionado ao prestígio que têm seus falantes nos diferentes estratos sociais. Por esse motivo, sabe-se que o desconhecimento da norma de prestígio, ou norma culta, pode limitar a ascensão social. Essa constatação fundamenta o posicionamento da linguística sobre o ensino da língua materna. (FOLTRAN, 2011).

O livro didático “Por uma vida melhor”, então, foi embasado em conhecimentos científicos e de preocupação cidadã, diferente de comentários baseados em opiniões e trechos fora de contexto. Nós, como linguistas, temos como dever a compreensão dos vários aspectos referentes à língua e a refutação, de maneira científica, de opiniões estigmatizadas sobre ela, pois quem “assassina” a língua portuguesa não é quem não segue a norma culta, mas aquele que ignora a existência de suas diferentes variedades.

REFERÊNCIAS

FERNANDES, Jairo. Por Uma Vida Melhor. 2011. (6m51s). Disponível em: <https://youtu.be/RWDYBWyrZsw>. Acesso em: 09 jun. 2019.

MINISTÉRIO da Educação. Dossiê – Livro Didático. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=16649>. Acesso em 09 jun 2019.

PROGRAMA Nacional Do Livro Didático. Por uma vida melhor. Brasília, 2011.

O que é o ELAN?

O ELAN é um programa para transcrição de arquivos de áudio e vídeo, desenvolvido pelo Instituto Max Planck de Psicolinguística. Suas principais características são: a sincronização entre o arquivo de mídia e a transcrição; a possibilidade de criação de múltiplas trilhas; ferramentas mais sofisticadas de buscas dentro de um corpus; a ampla flexibilidade de formatos de exportação da transcrição e, consequentemente, a compatibilidade com outros programas como Word, Excel, R, Rbrul, Praat etc. O objetivo principal de um sistema de transcrição é transpor a língua falada para o texto escrito de uma forma fiel à língua oral de modo que armazene o material coletado em meio escrito de maneira padronizada para facilitar a sua análise. O ELAN é utilizado por pesquisadores da área da Linguística e Psicolinguística e por aqueles que necessitam de transcrições na sua área de atuação.

Resenha: Linguística e ensino da língua portuguesa como língua materna (Rodolfo Ilari)

            Rodolfo Ilari é linguista formado em Letras Neolatinas pela USP, com especialização em língua e literatura italiana por essa instituição, é mestre e doutor em Linguística pela Université de Besançon e pela UNICAMP, também tem pós-doutorado em Semântica pela University Of California Berkeley. Suas áreas de atuação e pesquisa são ainda mais amplas que as áreas em que obteve seus títulos, sendo as principais linguística românica, semântica, pragmática, aspecto verbal e ensino de língua materna.

            O texto “Linguística e ensino da língua portuguesa como língua materna” (2009) foi produzido para o Museu da Língua Portuguesa, que foi criado em 2006 com o propósito de “valorizar a diversidade da língua portuguesa, celebrá-la como elemento fundamental e fundador da cultura e aproximá-la dos falantes do idioma em todo o mundo” (O MUSEU, c2019). O objetivo de Ilari ao escrevê-lo é demonstrar a influência da linguística, ciência nova comparada a outras, no ensino da língua portuguesa como língua materna.

            O artigo é constituído de oito partes, sendo seis delas tópicos do texto, seguidas por uma bibliografia recomendada e um glossário. Essa constituição textual mostra que muito foi pensado no leitor, que tem uma caracterização mais heterogênea do que o leitor acadêmico, já que o texto foi divulgado no site do Museu da Língua Portuguesa e não em revistas acadêmicas especializadas em linguística ou ensino. O texto tem como proposta geral reconstruir historicamente o surgimento da Linguística no Brasil e sua relação com o ensino da língua portuguesa.

            A primeira parte tem como título “Primeiras reflexões da Linguística sobre o ensino da Língua Portuguesa como língua materna” e parte de um ensaio escrito por Mattoso Câmara  Jr. em 1957, que trazia propostas e ideias inovadoras para a época. Partindo do ensaio de Câmara Jr., Ilari mostra o que foi conquistado pela Linguística nesse campo do saber nos cinquenta anos subsequentes a essa primeira reflexão: papel do linguista como pesquisador da linguagem, variação de maneiras de se pensar a língua (promovendo pesquisas), assimilação de outras teorias que têm a língua como fenômeno participante, tal qual a cognição.

            Em seguida, há uma parte destinada a tratar do gramático e do filólogo, figuras muito presentes no estudo da linguagem, principalmente antes da consagração da linguística como ciência no Brasil. O filólogo é o profissional que objetiva o estudo da língua como era antigamente, analisando textos escritos em língua portuguesa desde o século XII. Já o gramático é aquele que estuda, principalmente, a gramática normativa, feita para criar normas para a língua. Ilari mostra que o ensino da língua portuguesa nas escolas era totalmente baseado na gramática normativa, buscando sempre uma padronização da língua.

            A terceira parte trata do surgimento das ideias estruturalistas no contexto brasileiro, nos anos 1960, que tinham como tarefa o entendimento da estrutura de uma língua a partir da observação do comportamento linguístico. Com essa visão, então, percebeu-se que no Brasil convivem diferentes “línguas”, o que fez com que a forma do ensino da língua nas escolas passasse a ser questionado, já que a gramática normativa, conteúdo de tais aulas, não era seguida em situações efetivas de uso. No início, houve resistência pelos professores, mas já existe uma certa assimilação, pelo menos teórica, de que ensinar língua portuguesa não é só ensinar gramática.

            Logo depois há uma parte denominada “Linguística ou linguísticas?”, que é inteiramente dedicada à interdisciplinaridade da matéria e outros enfoques teóricos. Assim, são citados e explicados conceitos tais quais Sociolinguística, que envolve a relação entre língua e sociedade; Gramática Gerativa, em que a língua passa a ser concebida como um objeto matemático; e Análise do Discurso, que se importa com os valores ideológicos vinculados aos textos de uma sociedade complexa.

            A parte cinco fala das orientações metodológicas destinadas ao ensino e pensadas pela Linguística. Para esse propósito, inclusive, foi criada uma nova frente de estudos linguísticos, chamada de Linguística Aplicada, que hoje se preocupa com várias áreas de atividades humanas em que a linguagem tem papel essencial. Nesse momento a Linguística também passou a se preocupar com disciplinas de produção de texto, fazendo estudos que entenderam que estudar textos é diferente de estudar sentenças, já que pessoas são capazes de produzir textos eficazes mesmo sem a utilização da língua padrão e que todo texto real é uma forma de resposta. A partir disso, uma nova forma de corrigir redações precisou ser pensada, já que a correção tradicional costuma dar notas pela quantidade de erros ortográficos ou gramaticais presentes. A prática da alfabetização, hoje chamada letramento (o letramento abarca um conhecimento da escrita que “alfabetização” não suporta), também sofreu mudanças nesse período pelos estudos fonológicos, que mostraram algumas arbitrariedades da escrita. Estudos construtivistas também mostraram que a criança passa a ser alfabetizada quando compreende a relação entre som e escrita, não quando alcança o estágio da prontidão (a alfabetização começava pelo desenho das letras), como era pensado anteriormente. O ensino da leitura é e sempre foi um dos desafios da escola brasileira, desafio relacionado à desinformação sobre a leitura como competência.

            Por fim, há a última parte textual, focada em refletir sobre o que se espera da parceria entre linguística e ensino de língua materna, fazendo uma linha do tempo para mostrar o que mudou nos últimos anos. Hoje, a Linguística não precisa explicar sua presença para os agentes de ensino. Já a assimilação social da realidade linguística diversa do país ainda encontra resistência,

porque a mídia – sobretudo os jornais e a televisão – encamparam a velha bandeira da correção, da uniformidade lingüística e da primazia do escrito e, com seus manuais de redação, suas colunas de consulta gramatical e seus programas em que a idéia de língua é vinculada à idéia de pátria, continuam agitando um fantasma que tem sido extremamente eficaz para fazer da língua um motivo de exclusão social (ILARI, 2009, p. 21).

            A maior tarefa da Linguística relacionada ao ensino de língua materna está em valorizar os usos reais da língua e ensinar como usá-la em diferentes contextos comunicativos, para que o estudante aprenda a saber como realizar uma comunicação efetiva tanto no âmbito escolar e formal quanto em situações informais. Assim, o texto se conclui ao afirmar que atualmente o debate sobre a língua tem duas frentes opostas, a da compreensão da realidade linguística e a de ignorar tal realidade, ensinando dogmas. A escolha da linguística é sempre a da oposição ao preconceito, lutando pelo conhecimento existente.

            Ilari tem uma linguagem de fácil compreensão e é claro em suas ideias, tornando o texto agradável de ser lido, mesmo com a grande quantidade de informações que fornece. Tanto aspectos históricos quanto teóricos são bem explicados e balanceados no decorrer do texto, não havendo nenhuma informação não relacionada com as outras. Por esses motivos e também pela amplitude do assunto, tal leitura pode ser feita por toda pessoa com interesse nas áreas tanto de Linguística, quanto de ensino da língua portuguesa como língua materna, O texto, mesmo assim, é principalmente indicado para aqueles que estudam a língua, não só para ensiná-la.

Estruturalismo: Funcionalidade e descrição

Estruturalismo é um método científico que consiste em organizar o que se estuda em estruturas, cada elemento fazendo sentido ao estar relacionado a outros. Em relação às línguas,

[…] no século I a.C., percebeu-se que as línguas humanas possuem organização e são “estruturadas”. Aliás, é esta percepção mesma que vai permitir o estudo da linguagem sob a forma que se convencionou denominar gramática. Assim, o estudo das estruturas linguísticas é tão velho quanto o estudo das línguas. (BORGES NETO, 1991, p. 23).

            O estruturalismo na linguística pode ser diferenciado entre estruturalismo europeu e estruturalismo americano, se diferem por sua origem e pela forma como tratam as “estruturas” da língua.

            O maior marco do estruturalismo europeu foi a publicação do livro Curso de Linguística Geral, de Saussure, em 1916. Para esse autor, os elementos que fazem parte do sistema linguístico apenas fazem sentido no interior do próprio sistema. A noção de valor também foi de grande importância para esse estudioso e dentro desse ramo linguístico, nela foram definidas certas dicotomias. Entre elas está langue e parole, langue sendo a língua, o sistema de signos linguísticos e parole é a fala, individual para cada falante desse sistema, sua fala fazendo sentido dentro da comunidade linguística de que faz parte. Para o estruturalismo europeu, a descrição de um sistema linguístico deve ser feita de acordo com sua funcionalidade. Outros autores também foram importantes para esse ramo da linguística, como Hjelmslev e Trubetzkoy.

            Já o estruturalismo americano preocupou-se, inicial e principalmente, com a descrição das línguas indígenas do continente, evitando a influência dos conhecimentos prévios do estudioso. A descrição era baseada nos dados e não na experiência. Bloomfield foi um dos autores desse estruturalismo, dizendo que a linguagem deve ser estudada de forma indutiva. Assim, a linguística estrutural americana foi contrária aos estudos relacionados ao sentido, lidando mais com o corpus do que com a sua função dentro do sistema. É uma ciência que valoriza as particularidades da língua e que lida com suas explicações por si mesma, sem a relação com fatores externos. Outros estudiosos do estruturalismo americano foram Sapir e Boas.

            A tarefa de registrar línguas ágrafas presente no estruturalismo americano não aparece no europeu, esse estruturalismo parte de dados para que a língua seja identificada. Essa é a principal diferença entre o estruturalismo americano e o estruturalismo europeu, que parte de um sistema, língua, para estudar o que o forma, a fala.

REFERÊNCIAS

BORGES NETO, José. A gramática gerativa transformacional: um ensaio de filosofia da linguística. 1991. [283]f. Tese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem, Campinas, SP. Disponível em: <http://repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/271149&gt;. Acesso em: 11 jul. 2020.

ILARI, R. O estruturalismo linguístico: alguns caminhos. In: Fernanda Mussalim; Anna C. Bentes (Orgs). Introdução à Lingüística: fundamentos epistemológicos. São Paulo: Cortez Editora, 2004, p. 53- 92.

O que é audiodescrição?

A audiodescrição é uma modalidade de tradução audiovisual, de natureza intersemiótica, que visa tornar uma produção audiovisual acessível às pessoas com deficiência visual. Trata-se de uma locução adicional roteirizada que descreve as ações, a linguagem corporal, os estados emocionais, a ambientação, os figurinos e a caracterização dos personagens. Além disso, a descrição de quadros e peças de museus permite que o deficiente visual forme a imagem do quadro ou da peça em sua mente, caso não lhe seja possível tocar o objeto. Nas produções audiovisuais, que têm outros elementos sonoros como falas de personagens e trilha sonora, a descrição dos elementos é inserida de forma que aproveite momentos em que não há esses elementos sonoros, necessários ao entendimento do filme ou da peça de teatro. Geralmente existem poucos momentos com essa característica nos filmes, o que faz com que o audiodescritor tenha que definir o que deve ser priorizado durante a audiodescrição. Para a elaboração de um roteiro de audiodescrição é necessário que o audiodescritor tenha em mãos o objeto a ser audiodescrito, seja ele uma obra de arte, através de foto ou vídeo, ou uma produção audiovisual no formato de vídeo.

Um recurso de acessibilidade bem empregado faz com que a produção audiovisual chegue às pessoas com deficiência com qualidade e possa ser experenciada com prazer, entretenimento e crítica. Um recurso bem empregado traz à tona a apreciação e discussão da obra. Ao produzir obras com audiodescrição é feita a inclusão social daqueles que sem esse recurso não poderiam apreciar arte e cultura dentro de salas de cinema e museus, por exemplo. Trabalhar com audiodescrição é fazer parte de um trabalho que ajudará a sociedade a ser mais igualitária com aqueles que possuem deficiências. A audiodescrição se encaixa no conceito de Desenho Universal, que, segundo a Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, prevê a concepção de produtos, ambientes, programas e serviços para todas as pessoas, sem qualquer tipo de discriminação.

De que maneira o profissional tradutor deve se preparar para encarar os desafios da tradução técnica?

Quando descrições técnicas são necessárias, não se pode depender de machine translation como o Google Tradutor. Mesmo com frases e ideias simples, a tradução pode ser complicada, então o material técnico requere cuidado. O tradutor de tradução técnica deve ser fluente no par de línguas utilizado e ter familiaridade com o assunto. Mesmo um tradutor com background em engenharia precisará de pesquisa ao traduzir um texto técnico. Bons tradutores não aceitam trabalhos que não se sentem competentes em realizar e também aprendem sobre o material do trabalho que aceitaram.

Um dos desafios que o tradutor técnico enfrenta em seu trabalho é o fato de que alguns materiais são muito novos ou muito técnicos a ponto de não existir tradução para os termos utilizados. Nesse caso, a terminologia é discutida entre o tradutor e o cliente, sendo que o cliente tem a palavra final sobre a escolha terminológica. Além disso, o tradutor deve estar ciente que não deve omitir ou mudar partes do texto, pois isso pode afetar negativamente o usuário final e/ou o cliente. O layout do texto também é algo a ser pensado, já que uma ideia dita em inglês pode precisar de cinco palavras, enquanto em português precisará de 8. Mudanças podem ser necessárias também em relação a imagens e tabelas a serem utilizadas. O tradutor técnico também deve saber lidar com unidades de medidas, saber quais são utilizadas em cada cultura e como convertê-las. E, como todo tradutor, deve respeitar as deadlines, pois isso é muito importante para que o cliente fique satisfeito (pois ele também pode ter prazos), fale bem do seu trabalho para outros e volte a contratá-lo.

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